A Junta de Freguesia de Arroios apresenta a exposição Se o Portugal é novo, que seja novo para tudo – um olhar sobre o Sindicato do Serviço Doméstico, patente entre 24 de abril e 13 de maio, na estação da Alameda, no Metro de Lisboa.
A mostra reúne fotografias de Lieve Meersschaert, captadas entre 1978 e 1979, e apresenta um registo singular de um movimento coletivo que emergiu no contexto da Revolução dos Cravos, afirmando-se como parte ativa do processo de transformação social e política em Portugal.
Com curadoria de Mafalda Araújo e Dinis Santos, a exposição parte de uma frase dita por uma trabalhadora do serviço doméstico, em maio de 1974, durante um plenário no Teatro de São Luiz, pouco depois da revolução: “Uma vez que há um dia de união, uma vez que o Portugal é novo, que seja novo para tudo”. A partir desta afirmação, constrói-se uma reflexão sobre os limites e possibilidades do chamado “Portugal novo”, questionando quem ficou incluído — ou excluído — nas conquistas democráticas.
Menos de um mês após o 25 de Abril, centenas de trabalhadoras do serviço doméstico reuniram-se para fundar um sindicato representativo de um setor marcado pela invisibilidade, pela informalidade e pela ausência de direitos. Num universo que ultrapassava as 100 mil pessoas, maioritariamente mulheres, muitas delas migrantes rurais ou provenientes das antigas colónias, este movimento organizou-se em torno de reivindicações fundamentais, como o direito a salário digno, férias, descanso semanal e limitação do horário de trabalho.
Criado por e para quem exercia trabalho doméstico, o Sindicato do Serviço Doméstico destacou-se como uma experiência singular de organização coletiva, enfrentando condições de isolamento e exclusão dos enquadramentos tradicionais do sindicalismo. A partir de Lisboa, e com uma rede alargada a várias cidades, o sindicato desenvolveu formas de apoio jurídico, acompanhamento e organização do trabalho, contribuindo para a afirmação de direitos laborais e sociais.
Este movimento viria ainda a expandir-se com a criação da Cooperativa de Prestação de Serviços Domésticos, que propôs novas formas de organização do trabalho de cuidado, retirando-o da esfera privada e afirmando-o como uma responsabilidade coletiva. Através de serviços autogeridos, como limpeza, lavandaria, refeitórios e creches, foram construídas redes de apoio mútuo e solidariedade, com impacto no tecido social e na construção democrática.
É neste contexto que Lieve Meersschaert, chegada a Portugal em 1978, desenvolve um trabalho fotográfico que documenta o quotidiano deste movimento. As imagens agora apresentadas revelam uma perspetiva rara sobre a organização coletiva e sobre a construção de alternativas a formas de trabalho marcadas pela desigualdade e pela invisibilidade.
A exposição integra as comemorações do 25 de Abril em Arroios e propõe um olhar sobre a história recente a partir de quem participou ativamente na transformação social, afirmando a importância de reconhecer e valorizar estas experiências na construção do presente.