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06 Out 2022

Mensagem do Presidente

Presidente da Assembleia de Freguesia de Arroios,
José Manuel Cal Gonçalves

Caros concidadãos,

A Freguesia de Arroios tem reconhecidamente um importante património edificado, com tradições, com excelente e variada gastronomia, com eventos culturais que começam a marcar este espaço da cidade e, também, com história que merece ser conhecida e divulgada.

Hoje é comum ouvir falar nas ruas da freguesia inglês, alemão, francês, bengali e até chinês, já que, como todos reconhecem, esta é, porventura, a freguesia mais multicultural da cidade de Lisboa, já que alberga, no seu interior, de acordo com os dados recolhidos, quase cem nacionalidades de jovens e crianças sonhando com um amanhã em que o sol brilhará para todos e de mulheres e homens que nesse ensejo se dedicam ao trabalho e às artes!

Arroios é uma freguesia em que se sente, nas suas escolas, o pulsar das novas gerações, mas onde também se sente, cada vez mais, instalar o pulsar dos industriais, dos comerciantes, dos empresários empreendedores, dos intelectuais e dos novos nómadas-digitais.

Arroios é, também, uma freguesia de contradições e de problemas para os quais  importa encontrar, rapidamente, soluções assentes em estudos sociais e técnicos. Tal busca de soluções deve assentar sempre no permanente diálogo e em conjunto com as populações que aqui vivem e trabalham, com as forças políticas representadas nesta assembleia de freguesia e, também, com a participação dos vários grupos e movimentos de cidadania e, até, com os cidadãos que, individualmente, queiram contribuir para a reflexão dos problemas da freguesia.

Na área geográfica, do que é hoje a Freguesia de Arroios, viveram personagens e ocorreram factos de grande e relevante importância histórica.

Quanto aos personagens que aqui vivenciaram a sua vida, de que destacamos os seguintes: No Palácio da Bemposta – hoje Academia Militar – viveu a filha de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão, Catarina de Bragança (rainha consorte, mulher de D. Carlos II do Reino de Inglaterra, Reino da Escócia e Reino da Irlanda). No Largo do Intendente, viveu Diogo Inácio Pina Manique, o célebre Intendente Pina Manique que comandou a polícia no reinado de D. Maria I e promoveu uma feroz perseguição a todos os que abraçavam os ideais pombalinos. Na atual Rua de Santa Bárbara, viveu o Padre José Ferrão de Mendonça e Sousa, (que foi prior da paróquia dos Anjos), maçon perseguido por Pina Manique, deputado às Cortes Constituintes de 1821-1822. No já citado Palácio da Bemposta, residiu o rei D. João VI e o infante D. Miguel, após o regresso, de ambos, do Brasil. Já na Rua José Estevão viveu o Vice-Almirante António Maria de Azevedo Machado Santos, carbonário e maçon, herói da República, principal protagonista dos heróis da Rotunda, na  Revolução do 5 de outubro de 1910 e que foi deputado à Assembleia Constituinte de 1911,  Ministro do Interior em 1917 e senador da República. Viria a ser, junto ao Largo do Intendente, barbaramente assassinado já na madrugada do dia 20 de outubro de 1921, durante a denominada “noite sangrenta” em que foram assassinados mais de vinte políticos, militares e intelectuais. Por sua vez, na Rua Palmira viveu, durante a adolescência e início da juventude, Marcelo José das Neves Alves Caetano, que iniciando-se profissionalmente como conservador do registo civil em Óbidos, cedo chegaria a professor catedrático da Faculdade de Lisboa, destacando-se como fundador do moderno Direito Administrativo Português, com a elaboração, entre outros, do Código Administrativo de 1936-1940. Assumiu, ainda, várias funções e cargos durante o Estado Novo, sendo deposto de Presidente do Conselho de Ministros a 25 de abril de 1974. Já o poeta da Mensagem, Fernando António Nogueira Pessoa, (Fernando Pessoa e o criador dos seus vários heterónimos), teve residência nesta freguesia, na Rua Passos Manuel (1912), na Rua Pascoal de Melo (1914), na Rua D. Estefânia (1915-1916), na Rua Antero de Quental, na Rua Almirante Barroso e na Rua Cidade da Horta, (1916-1917).

Quanto a factos históricos que reportamos de relevantes, permitimo-nos elencar os seguintes: Há relatos da existência de um acampamento de cruzados aquando da reconquista de Lisboa em 1147, em território que integra esta freguesia. No Campo dos Mártires da Pátria, (anteriormente designado e também conhecido por Campo de Santana), a 18 de outubro de 1817 ocorreu, num patíbulo público, o enforcamento dos onze companheiros que, com o General Gomes Freire de Andrade, foram presos e condenados à morte por suspeição de conspiração contra o General inglês Beresford que, então, na ausência, no Brasil, da família Real, liderava a denominada Junta Governativa sediada em Lisboa. Do Palácio da Bemposta, aquando da Vilafrancada, partiria o rei D. João VI, para Vila Franca, ao encontro do filho D. Miguel e demais revoltosos – após a aclamação como rei absoluto pelo Regimento de Infantaria 18 – aderindo à revolta e dissolvendo as Cortes Liberais, ou seja,  marcando um interregno no Regime do Constitucionalismo Liberal e o retorno, por algum tempo, ao absolutismo. No Largo do Intendente funcionou a Associação do Registo Civil e Livre Pensamento, que entre outros aspetos, defendeu e promoveu a institucionalização do Registo Civil, obrigatório, de que todos nós, hoje, beneficiamos com naturalidade, desde o assento de nascimento até ao assento de óbito. Esta associação criada a 2 de agosto de 1895, ainda no final da monarquia, ver-  -se-ia compulsivamente encerrada e ilegalizada por volta de 1937, pelo Estado Novo. Nesta freguesia se afirmou, por exemplo, de forma bem vincada, o movimento republicano que aqui realizou importantes comícios quer no final do regime monárquico, quer já após a proclamação da República.  Já na zona onde se encontram, hoje, as ruas Alves Torgo e Quirino da Fonseca, existia a 4 de outubro de 1910, a Azinhaga das Freiras, local onde o Almirante Cândido dos Reis, ao julgar perdida a possibilidade de vitória, da revolução de 5 de outubro de 1910, durante a noite de 4 de outubro de 1910 pôs termo à vida. Também nesta freguesia, votou pela primeira vez, a 28 de maio de 1911, uma mulher – Carolina Beatriz Ângelo, sufragista e primeira mulher médica-cirurgiã, que residiu na Rua António Pedro – por ocasião das eleições para a Assembleia Constituinte de 1911.

Ao referirmo-nos, desta forma, a alguns cidadãos – dos mais variados quadrantes políticos e épocas, sem exceção – que viveram na área do que é, hoje, a nossa freguesia, quer a factos históricos que foram, por si, determinantes quer negativa, quer positivamente, queremos como acima afirmamos, deixar claro que esta freguesia tem uma história, em muitos casos desconhecida, que urge conhecer e, por outro lado, reafirmar de antanho à atualidade o seu pendor polifacetado de correntes de opinião e de pensamento que importa sempre respeitar, batendo-nos, sempre, no entanto pela tolerância, pela paz e pela justiça.

A Assembleia de Freguesia de Arroios deve, assim, hoje respeitar este património de pensamento polifacetado e chamar a si um espaço e centro agregador das ideias e vontades das gentes que aqui moram e trabalham.

A Assembleia de Freguesia de Arroios, pela sua configuração constitucional, queremos que seja a célula base do centro de debate de ideais e de soluções para que esta freguesia, não só perdure no tempo, mas perdure como um espaço de interculturalidade, assente na paz, na concórdia, na justiça e no respeito pelos direitos sociais. Tudo isto, sem, no entanto, perder de vista o respeito pelas dissonâncias e opiniões divergentes, manifestadas no quadro democrático, já que em nosso entender, só assim, poderemos, TODOS, convergir verdadeiramente numa freguesia em que a DEMOCRACIA e o respeito pelos DIREITOS HUMANOS, em todas as suas gerações – política, social e humanitária – seja uma vivência do dia-a-dia.     

Estou certo que, todos em conjunto junto – eleitos e eleitores –  vamos contribuir para a melhoria da qualidade de vida do nossa freguesia.

Tendo presente, como nos ensina o poeta espanhol António Machado, que não há caminho, que o caminho se faz ao andar, atrevo-me a parafrasear um canto autor da liberdade, afirmando que espero encontrar, nesta caminhada, em cada esquina um amigo, em cada rosto a igualdade e que Arroios seja uma terra de fraternidade.

Numa expressão, que a FREGUESIA DE ARROIOS seja o LUGAR DE TODOS.

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