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14 Jan 2026

Ilda Nunes Almeida: uma memória que regressa ao Largo do Intendente

Ilda Nunes Almeida nasceu em 1923 e viveu grande parte da sua vida no Largo do Intendente, no edifício do antigo Cabeleireiro Nunes, fundado pelo seu pai. Nos últimos anos, vivia numa situação de forte isolamento social e em condições habitacionais frágeis, numa casa que se encontrava em risco.

Em 2011, através do trabalho de mediação social e envolvimento comunitário desenvolvido pelo Largo Residências no Intendente, essa situação tornou-se visível. O alerta chegou à Câmara Municipal de Lisboa, então liderada por António Costa, e ao Gabip Mouraria. Em articulação com os serviços municipais, foi encontrada uma solução habitacional alternativa, próxima da sua morada original, garantindo condições de maior segurança e dignidade.

Durante o processo de mudança de casa, Ilda Nunes confiou à Marta Silva um retrato seu, jovem, penteada pelo pai no antigo cabeleireiro. Um gesto simples, mas carregado de memória.

Em 2019, já após o seu falecimento, o edifício onde viveu, e onde durante décadas funcionou o Cabeleireiro Nunes, passou a acolher a nova sede da Junta de Freguesia de Arroios. Foi então proposto que esse retrato regressasse às mesmas paredes, não como peça decorativa, mas como presença e homenagem.

A partir desta semana, o retrato de Ilda Nunes Almeida encontra-se afixado na sede da Junta de Freguesia de Arroios, como forma de honrar a sua história e tantas outras que fazem parte da memória viva do território.

O texto que se segue é uma crónica da autoria de Marta Silva, Diretora-Geral do Largo Residências, publicada no livro comemorativo 10 Anos x 10 Lugares – Largo Residências 1.0 10. É aqui partilhado na íntegra, com autorização e crédito à autora.

As coisas mudam de lugar, as memórias não

Esta imagem remonta ao ano de 2017. Ano em que este edifício entrou em obras para deixar de ser o Antigo Cabeleireiro Nunes e passar a ser a sede da Junta de Freguesia de Arroios. O único edifício neste largo que contrariou o movimento da privatização. Depois de devoluto, a Câmara Municipal de Lisboa adquiriu-o para assegurar a sua permanência neste largo após o fim do contrato de arrendamento da sua sede provisória em edifício privado.

Mas voltemos ao nosso início, a 2011.
A terceira vez que visitei o edifício onde até agora esteve a sede do Largo Residências, tive uma conversa com a senhoria sobre quem vivia à nossa volta, quem eram os nossos poucos vizinhos, num largo já tão desabitado. Mesmo ao nosso lado, a vizinha Mimi com quem convivemos à janela durante anos, no mesmo prédio apenas mais uma família, de resto todos estudantes. No prédio do antigo Sport Clube Intendente apenas uma família, uma idosa que vivia já sem parte do telhado. Neste edifício que vemos em obras, à nossa frente, contou-nos a senhoria que vivia uma senhora idosa, D. Hilda, cega, que já não saía de casa há anos. Estava comigo nesta conversa a Madalena Victorino, minha mestra amiga. Nesse momento trocamos olhares, conversas, suspiros, e dissemos logo que tão ou mais importante do que voltar a encher um largo muito vazio de pessoas, seria encher o quarto de vida a quem nele está refém numa longa e fria solidão. Foi aí que a minha atenção despertou para a solidão urbana. Os idosos que foram ficando, quando os mais novos iam fugindo do Intendente degradado, e o que os senhorios não investem na manutenção dos edifícios pela falta de valor imobiliário. Assim nasceu a inspiração para o projecto “Companhia Limitada” que desenvolvemos entre 2012 e 2016.

Fui observando todos os dias à procura de uma pista de como lá entrar, de como ajudar. Até que conheci a outra senhora que lá morava, a sua suposta prima, D. Helena, que se movimentava já com muita dificuldade, quer pelo volume do seu corpo, quer pela ajuda das suas canadianas. Todos os dias, a D. Helena vinha às compras para as duas, mas também ficava pedacinhos à conversa com as novas vizinhas do Largo. Participou e assistiu na primeira fila (e ai! de nós se não lhe reservassemos o lugar) a todas as actividades culturais que fazíamos no largo. Vibrou com o concerto do maestro Victorino de Almeida no primeiro festival do Bairro Intendente em Festa, e dançou ao seu jeito no Baile do Largo. Com a confiança a aumentar comecei a entrar em casa, pelo menos para ajudar a levar os garrafões de água e, finalmente, conheço a D. Hilda. Ladeada pelos seus gatos, e vários cobertores, mesmo no Inverno, o seu quarto estava instalado no antigo salão de cabeleireiro do senhor seu Pai: o antigo cabeleireiro Nunes. Ficávamos meias-horas à conversa, e fui conhecer outra vizinha que lhe levava comida todos os dias: a D. Maria. Um dia, já com confiança, disse-me: “Martinha, guarde aquela fotografia minha tão bonita, jovem, penteada pelo meu pai. Nunca mais a irei ver e a Martinha pode usar nas suas histórias e nos seus espectáculos.” Assim o fiz. Guardei.

O tempo foi passando, e o prédio piorando cada vez mais as condições. Uma fachada que já conheci torta, dava a notar o perigo iminente para quem habita este edifício. Um ano depois, em 2012, acolhemos e apoiamos na mediação um curso de realizadores de cinema-documental da escola suíça – HEAD, Genève. A convite do Vasco Pimentel falei com um conjunto de realizadores sobre as histórias do bairro e duas alunas interessaram-se nas histórias destas vizinhas. Foi assim que, para realizar o seu documentário, substituíram o meu papel, dando-lhe ainda mais intensidade. Todos os dias visitavam a D. Hilda e a D. Helena, levando um lanche para acompanhar a conversa. Em 10 dias criam um filme documental que seria mais tarde apresentado na edição seguinte do IndieLisboa International Film Festival.

Nesse mesmo ano, a Câmara Municipal de Lisboa, com o antigo presidente António Costa ao comando, tendo a preocupação de que algo neste largo ficasse no domínio público, compra o edifício, sendo assim os actuais senhorios da D. Hilda.
Assim que soube, fiz chegar ao gabinete do presidente da Câmara Municipal uma carta, acompanhada de um DVD com o filme, que retrata o estado tão perigoso deste edifício. Recordo-me de ver uma parte do quarto da D. Helena já com um buraco até ao andar de baixo. A boa notícia é que em menos de uma semana a Proteção Civil, com a nossa ajuda, lá entrou, para confirmar o estado do edifício, e, em poucos dias, a vereação da Habitação e Desenvolvimento Local, na altura no comando da arquitecta Helena Roseta, conseguia formalizar a atribuição de uma casa municipal, mesmo na travessa ao lado, que não tinha sido atribuída num concurso municipal (Piparu). A mudança da casa foi um dos grandes momentos de união da vizinhança. Vários vizinhos e outros comerciantes participaram na angariação de fundos para a compra de electrodomésticos e outros bens necessários. A nossa equipa do LARGO ajudou na selecção de coisas a trazer para a casa nova, bem mais pequena. Até o pai de uma aluna, o Gonçalo Fusco, veio ajudar, porque a D. Hilda dizia que só saía da sua casa ao colo dos bombeiros. O Gonçalo, na sua folga, assim o fez. Antes de entrar na nova casa, um novo antigo vizinho reconhece a D. Hilda que já não via há muitos anos e emocionam-se juntos com lembranças do antigo Intendente da sua juventude.

Os anos passam e, infelizmente, quando a nova sede da Junta de Freguesia de Arroios é inaugurada, já a D. Hilda tinha falecido. Foi na inauguração que me lembrei do presente que a D. Hilda me tinha dado: o seu retrato. É este retrato que abre a cerimónia de inauguração, ficando assim para o mesmo lugar, tornando a sua memória e do seu pai, cabeleireiro Nunes, eterna.

Marta Silva
Directora Geral do Largo Residências

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